quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Maldição divina

10

Sopra o vento alimentando a distância
de onde navega a nau em penitência
desterrada sem qualquer clemência
do povo em terra e sua ignorância

Da algazarra costeira ao silêncio marítimo
do calor terreno ao frio indócil
navega o barco pelo reino fóssil
num mar bravio de sacolejar sem ritmo

A mensagem atravessada de virtudes
e o povo em outros tempos cativado
seguem abandonando gentilmente

dando lugar ao eco negro da quietude
a um Deus por tantas eras celebrado
selando seu destino esquecido eternamente

Imagem: Jun Kumaori

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Minimamente abstrato

A/B


















Estrado

Imagem: quadro de Barnett Newman 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Desejo de rima pobre para o amanhã


Amanhã haverá ressaca
dor de cabeça de cachaça
náusea horrível, gosto de nhaca
amanhã haverá ressaca

Amanhã será verde musgo
o fundo do poço, o quarto mudo
um Deus nos acuda, o fim do mundo
amanhã será verde musgo

Amanhã, nem quero pensar
não quero viver, não quero ansiar
porque vou beber até raiar
mas amanhã, nem quero pensar

Amanhã, não deve existir
hoje é o dia que venho aplaudir
hoje é o berço do meu insistir
Amanhã não deve existir

Amanhã ou amanhãs, não interessa
prefiro viver sem pressa
enquanto deixamos que ele amanheça
vamos deixar que o hoje aconteça!

Foto: Matthew K "Mojokiss" Mayes

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Amor?


Se o amor soa bem
aos olhos de quem
bem te quer

Haverá de soar tão alto
em sobressalto
em lugar qualquer?

Do susurro ao grito
do chão ao infinito
até mesmo a lua?

De tão alto o soar
do grito sem ar
o amor também sua

Foto: depois eu ponho o autor, sem tempo agora

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O primeiro dos deuses era mulher


Gosto do chão
do pé, da mão,
im-pulso puro
na rocha dura,
da realidade,
que raridade!
Olhar ao céu
pernas ao léu
num vôo lento
até no cimento
pousar feliz,
eu mesmo fiz:
trôpego e bêbado,
esparramado
brinquei, sujei,
ri e rolei,
passei a mão
nesse meu chão
nessa frieza
onde a tristeza
da molecada
numa zoada
com a mãe terra
morre e se enterra

Foto: Frederico Pelachin

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O selo



Se de partes se compõe o mundo
de partidas compomos nossa vida,
porém de não há sentido, no fundo
quando fica sem a volta cada ida...

Tudo se resume ao Deus tempo,
e ao carinho com que conduz agouros
se cada partida é um destes ao vento
cada chegada, seu ancoradouro

Os departures são parte da minha,
gosto do avante sem olhar para trás
mas deixo sempre a saudade com linha
pra recolher o que um arrival me traz

E sempre à espreita, a dona felicidade
sempre me aguarda para pregar peças
em todo o destino, em qualquer cidade
partindo ou chegando, vou feliz à beça

Minhas partidas são uma ode a aventura
do devaneio ao calafrio da liberdade,
e minhas chegadas, num aconchego de ternura,
eu me derreto nos braços da saudade!

Notas:
Texto em resposta ao gentil convite "selado" pela Elenir do Viaje na Janela - http://viajenajanela.blogspot.com
Coincidentemente dia 13/12 estou saindo para uma viagem de 40 dias rumo a NY e Europa, na foto, o metrô de NY. Tudo isso torna a brincadeira menos lírica, mas muito divertida!
Fiquei muito feliz com o convite selado e de praticar O Selo, com muito zelo!... tanto que vou selar também! Quem sabe alguém responde... sei lá!

- Nada mais justo que para a viajante, né?
http://foiassimdoispontos.blogspot.com/
 - Às minhas amigas Extraordinárias, que vão adorar falar sobre:
http://somosextraordinarias.blogspot.com/
- À Moni e o seu cuidado com as palavras:
http://blogdamoni.blogspot.com/
- Talvez esse povo seja mais rebelde e contra "pautas", mas não custa tentar:
   - Caracoflávia -
http://flaviadoria.blogspot.com/
   - Tayo, o mestre samurai das palavras -
http://limitedapalavra.blogspot.com/
   - Álvaro e as sutilezas -
http://cinzasdapoesia.blogspot.com/

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Negativo


Um dia perdi a hora
e da hora, a vez na fila
e da fila, foi-se o trem,
sem trem não houve chá,
o chá das três e trinta
e nem cigarro nem isqueiro
perdi a fumaça do cinzeiro,
e sem chá e sem fumaça
perdi a idéia na cachaça,
sem idéia aquela carta
já não foi pra namorada.
Sem idéia e da cachaça
aos braços da devassa
amanheci sem meu juízo
traí a namorada
e quase perdi o pinto.
Me perdi do meu amor
e o sorriso do meu filho
a proza com o avô
e a atenção no meu trabalho
o dedão no maquinário
a razão em um repente
a briga pra um otário
na briga perdi um dente
e não virei presidente,
e sem dente e sem trabalho
perdi anos sentado
num vaso sanitário
no meio do escritório
escrevendo relatórios.
Perdi o suor da vida,
o desejo de conquista,
o emprego e a esmola,
o segredo do meu cofre
e o dinheiro junto,
me tornando vagabundo
perdi a sorte que não encontrei
andando pelo mundo
perdi demais no carteado.
Então sem nada fui à igreja
e me perdi no sermão
da escolha perdi a certeza
e no meio da multidão
acabei me perdendo da morte
e o epitáfio da minha lápide.
Perdi a chance do sossego
e nas mãos do desapego
vago louco, desgarrado
pois cada ano que passei
cada dia que eu guardei
eu perdi sem ter ganhado


Foto: ♥ Jing ♥

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desterro


'030' by The Good The Bad (UNCUT) from 030 on Vimeo.

Silêncio opaco, da quietude
quarto apagado em branco e preto
recém desperto em plenitude
escorregando pra mais perto

Descanso os olhos nos teus ombros
deslisando as mãos no teu corpo
ralando a barba no teu rosto
calando a boca no pescoço

Súbita ira de desejo
suspiros, pernas e enrosco
em frenesi úmido e tosco
o prazer máximo em lampejo

Trêmula ainda em meus braços
olhando com sorriso fraco
me arremessando do sossego
Por que investir nesse laço?

Se rejeitaste meu apego

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Afim de só papo



A
É
...

Porta
porte
por te
por ti
per se
ésper e
espere 
espere a Di
espere, e tu
espere a mi
espere só... 
... lá si
m'espere lá 
... se dó
dó s'espere 
... que 'pê'
desespere aqui
dispare só
disperse pó
desse per disse
desse per te mi
... ré fá
mi expire fé
inspire só
expulse me
expurgue te
exceda-se
exale
esqueça-me

Imagem: Adara Sanchez

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Feriados

Tomei o sol
cerveja no mar
espumas brancas
amargor fresco
de um dia inteiro
suando do gelo
de gelo
degelo
de ondas de calor
indo e vindo
engolindo
enrubescendo
decrescendo
cosmopolita
belo e seco
se pondo
às sete em ponto
e eu tonto



Imagem: Patrick Hrub

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ressaca eleitoral gratuita



Palha
e aço
nome
Bom
bril,
Brasil
Asso
lan
assolam
palha
e aço
e nomes
e fomes
de multi
dões
multi
dedões
todos
somos
Multidões
e rios
e bah
ia
porque não vai
e santos
como o paulo
ou a catarina
desaguando
em urnas
com os dedos
sujos
esperando
limpar
os nomes sujos
para lavar a alma
para lavar a lama,
de política
de imperícia
de império
esquerdista (sim, tenho lado)
o Brasil tem lado
o esquerdo
a direita
morreu
porque é feia
é dura
rouba mas faz
estupra
mas não mata
mas mata
e o pobre
palha
de aço
acredita
na dita
história
de quem
não fez nada
e fez tudo
ao contrário
mas vende
o canário
verdinho
no cenário
internacional
de mal
versus bem
não, bem
não vá
volte
vote

te
à
merda


Obs1: merchan do blog, receita = 0
Obs2: sim, tenho lado

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Recesso

Recesso por motivo de trabalho
sem postar 2 semanas
sinto falta dos poemas

Terça-feira que vem

Prometo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Angina


E no início do dia
no pulsar do coração
choro gotas de areia
derrapando em vão
pela ampulheta horária
da brevidade humana
meio louco, meio são

Soluço de consciência
estoura de espasmo químico
da perene penitência
pulando de um choque mínimo
enquanto a respiração se arrasta
e o sufoco da paciência
ri sem achar graça

Resignado consolidando nada
como peças de legos
num mar repleto de bolhas
frágeis e multi-saborosas.
Elas estouram caladas em marasmo
como a ansiedade se contrapondo
à felicidade de um orgasmo

Espremo o limão racional
nos olhos do coração
e deixo queimar o dia ao sol
por mais uma vitória vazia
sigo, brilhantemente cego
contando com a amnésia da morte
escorrendo o sol por mais um horizonte
vermelho rajado com cinza do mau tempo

Só breve vivo

Imagem: Sombras de Kumi Yamashita

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Life attempt

Let´s hide ourselves away
and lock our will a thousand miles
maybe then we could forget our way
and find a path for fake smiles

Let´s play someone else´s role
and search for some pleasure under another skin
maybe then we could deceive other´s looks
and find courage where shame begins

Let´s get together with regular people
with the same plastic souls
maybe we will get the world better
maybe our lies would come true

Let´s live pretending happiness
and ignore our miserable lives
it´s meaningless to remember our fears
because without happiness we just can not die

Imagem: Dave Kinsey