quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O selo



Se de partes se compõe o mundo
de partidas compomos nossa vida,
porém de não há sentido, no fundo
quando fica sem a volta cada ida...

Tudo se resume ao Deus tempo,
e ao carinho com que conduz agouros
se cada partida é um destes ao vento
cada chegada, seu ancoradouro

Os departures são parte da minha,
gosto do avante sem olhar para trás
mas deixo sempre a saudade com linha
pra recolher o que um arrival me traz

E sempre à espreita, a dona felicidade
sempre me aguarda para pregar peças
em todo o destino, em qualquer cidade
partindo ou chegando, vou feliz à beça

Minhas partidas são uma ode a aventura
do devaneio ao calafrio da liberdade,
e minhas chegadas, num aconchego de ternura,
eu me derreto nos braços da saudade!

Notas:
Texto em resposta ao gentil convite "selado" pela Elenir do Viaje na Janela - http://viajenajanela.blogspot.com
Coincidentemente dia 13/12 estou saindo para uma viagem de 40 dias rumo a NY e Europa, na foto, o metrô de NY. Tudo isso torna a brincadeira menos lírica, mas muito divertida!
Fiquei muito feliz com o convite selado e de praticar O Selo, com muito zelo!... tanto que vou selar também! Quem sabe alguém responde... sei lá!

- Nada mais justo que para a viajante, né?
http://foiassimdoispontos.blogspot.com/
 - Às minhas amigas Extraordinárias, que vão adorar falar sobre:
http://somosextraordinarias.blogspot.com/
- À Moni e o seu cuidado com as palavras:
http://blogdamoni.blogspot.com/
- Talvez esse povo seja mais rebelde e contra "pautas", mas não custa tentar:
   - Caracoflávia -
http://flaviadoria.blogspot.com/
   - Tayo, o mestre samurai das palavras -
http://limitedapalavra.blogspot.com/
   - Álvaro e as sutilezas -
http://cinzasdapoesia.blogspot.com/

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Negativo


Um dia perdi a hora
e da hora, a vez na fila
e da fila, foi-se o trem,
sem trem não houve chá,
o chá das três e trinta
e nem cigarro nem isqueiro
perdi a fumaça do cinzeiro,
e sem chá e sem fumaça
perdi a idéia na cachaça,
sem idéia aquela carta
já não foi pra namorada.
Sem idéia e da cachaça
aos braços da devassa
amanheci sem meu juízo
traí a namorada
e quase perdi o pinto.
Me perdi do meu amor
e o sorriso do meu filho
a proza com o avô
e a atenção no meu trabalho
o dedão no maquinário
a razão em um repente
a briga pra um otário
na briga perdi um dente
e não virei presidente,
e sem dente e sem trabalho
perdi anos sentado
num vaso sanitário
no meio do escritório
escrevendo relatórios.
Perdi o suor da vida,
o desejo de conquista,
o emprego e a esmola,
o segredo do meu cofre
e o dinheiro junto,
me tornando vagabundo
perdi a sorte que não encontrei
andando pelo mundo
perdi demais no carteado.
Então sem nada fui à igreja
e me perdi no sermão
da escolha perdi a certeza
e no meio da multidão
acabei me perdendo da morte
e o epitáfio da minha lápide.
Perdi a chance do sossego
e nas mãos do desapego
vago louco, desgarrado
pois cada ano que passei
cada dia que eu guardei
eu perdi sem ter ganhado


Foto: ♥ Jing ♥

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desterro


'030' by The Good The Bad (UNCUT) from 030 on Vimeo.

Silêncio opaco, da quietude
quarto apagado em branco e preto
recém desperto em plenitude
escorregando pra mais perto

Descanso os olhos nos teus ombros
deslisando as mãos no teu corpo
ralando a barba no teu rosto
calando a boca no pescoço

Súbita ira de desejo
suspiros, pernas e enrosco
em frenesi úmido e tosco
o prazer máximo em lampejo

Trêmula ainda em meus braços
olhando com sorriso fraco
me arremessando do sossego
Por que investir nesse laço?

Se rejeitaste meu apego

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Afim de só papo



A
É
...
Pé
Porta
porte
por te
por ti
per se
ésper e
espere 
espere a Di
espere, e tu
espere a mi
espere só... 
... lá si
m'espere lá 
... se dó
dó s'espere 
... que 'pê'
desespere aqui
dispare só
disperse pó
desse per disse
desse per te mi
... ré fá
mi expire fé
inspire só
expulse me
expurgue te
exceda-se
exale
esqueça-me

Imagem: Adara Sanchez

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Feriados

Tomei o sol
cerveja no mar
espumas brancas
amargor fresco
de um dia inteiro
suando do gelo
de gelo
degelo
de ondas de calor
indo e vindo
engolindo
enrubescendo
decrescendo
cosmopolita
belo e seco
se pondo
às sete em ponto
e eu tonto



Imagem: Patrick Hrub

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ressaca eleitoral gratuita



Palha
e aço
nome
Bom
bril,
Brasil
Asso
lan
assolam
palha
e aço
e nomes
e fomes
de multi
dões
multi
dedões
todos
somos
Multidões
e rios
e bah
ia
porque não vai
e santos
como o paulo
ou a catarina
desaguando
em urnas
com os dedos
sujos
esperando
limpar
os nomes sujos
para lavar a alma
para lavar a lama,
de política
de imperícia
de império
esquerdista (sim, tenho lado)
o Brasil tem lado
o esquerdo
a direita
morreu
porque é feia
é dura
rouba mas faz
estupra
mas não mata
mas mata
e o pobre
palha
de aço
acredita
na dita
história
de quem
não fez nada
e fez tudo
ao contrário
mas vende
o canário
verdinho
no cenário
internacional
de mal
versus bem
não, bem
não vá
volte
vote
vá
te
à
merda


Obs1: merchan do blog, receita = 0
Obs2: sim, tenho lado

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Recesso

Recesso por motivo de trabalho
sem postar 2 semanas
sinto falta dos poemas

Terça-feira que vem

Prometo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Angina


E no início do dia
no pulsar do coração
choro gotas de areia
derrapando em vão
pela ampulheta horária
da brevidade humana
meio louco, meio são

Soluço de consciência
estoura de espasmo químico
da perene penitência
pulando de um choque mínimo
enquanto a respiração se arrasta
e o sufoco da paciência
ri sem achar graça

Resignado consolidando nada
como peças de legos
num mar repleto de bolhas
frágeis e multi-saborosas.
Elas estouram caladas em marasmo
como a ansiedade se contrapondo
à felicidade de um orgasmo

Espremo o limão racional
nos olhos do coração
e deixo queimar o dia ao sol
por mais uma vitória vazia
sigo, brilhantemente cego
contando com a amnésia da morte
escorrendo o sol por mais um horizonte
vermelho rajado com cinza do mau tempo

Só breve vivo

Imagem: Sombras de Kumi Yamashita

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Life attempt

Let´s hide ourselves away
and lock our will a thousand miles
maybe then we could forget our way
and find a path for fake smiles

Let´s play someone else´s role
and search for some pleasure under another skin
maybe then we could deceive other´s looks
and find courage where shame begins

Let´s get together with regular people
with the same plastic souls
maybe we will get the world better
maybe our lies would come true

Let´s live pretending happiness
and ignore our miserable lives
it´s meaningless to remember our fears
because without happiness we just can not die

Imagem: Dave Kinsey

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Leve















Hoje não há teoria das cordas
que possam segurar
o cheiro do vinho
e o sono leve das pedras
boiando no ar

Hoje quem manda é meu caos
ao construir à minha ordem.
Sou rei e valete de paus
mas virei três, não soube o que fiz
(e não vai rimar), porque quero rir!

Ao invés disso, sem desespero,
deixo que o quatro escorregue
da manga com limão e gelo
e a língua cole o seis
na testa da sorte

De sorte que seja minha hoje
raptada do seu mundo probabilístico
e jogada na minha masmorra
grafitada coloridamente, como o diabo
realizando aquele porcento maroto

Até perder a graça,
na desgraça do erro sério,
do acerto infantil e ingênuo
ao fechar o olho e atirar,
correr, saltar e cair errado

Quebrei todos os dentes
sem me machucar
e ri com boca sangrenta
porque hoje não há dor
Hoje está meu

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Meu ovo de colombo

Hoje eu
prego
Hoje deu
ontem zero
Pelo réu
rezo
Sai do breu
o nó cego
E no meu medo
escorrego
Não é meu
mas me entrego
e no desfecho
eu nego
Hoje eu
ontem ego

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

TaiyoStyle

Se o carro puxa o cachorro
e o cachorro puxa o rabo
do ponto de vista dele (o rabo)
não há problemas em balançar

Mas se o rabo, puxa-vida,
puxasse o cachorro,
cachorros de rabos cortados
viveriam pela metade

Por isso disse ao veterinário: mitose.

Eu, que não sou rabo nem cachorro,
me preocupo onde meto meu nariz,
para que não fique triste,
ou viciado

Ainda assim volto pra casa embriagado
às vezes sólido, às vezes líquido,
já que nada se cria e tudo se transforma,
mas com uma felicidade só minha

Resultado disso: Van Gogh com Picasso

Não é questão de ângulo,
talvez papo de bêbado,
mas nunca um pé sadio
será mais feliz que olhos míopes

E se eu, assim, meio Picasso
balançando igual rabo de cachorro
e latindo para carros
não derreto meu vício em tristeza

Digo ao veterinário: me (Van) Grogue

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pensamentos líquidos

Quadro de Troy Lovegates
Eterno náufrago de mim mesmo
afundado em pensamentos infinitos
inter-conectados ao mesmo tempo
sujo de eternos sobrescritos

Nessa apnéia surda, vivo
abrindo passagem entre os ditos,
contos, versos, romances
dos mais variados nuances

Mas hei de respirar um dia
a clareza de um dia reto
e sem volteios, sem cores frias,
sem vozes mentais, aberto

E verei tudo de cima
tecendo versos em caos ordenado
em cores quentes, minhas rimas
do todo ou em parte, feitas com cuidado

Onde finalmente perecerei feliz
por me ver em totalidade
imerso no mundo que fiz
e também parte de qualquer paisagem

Tornando-me encaixe exato
entre o passado e o futuro distantes
apenas humano em seu extrato
em fluxo único e constante


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Encruzilhada

Te escolhi dentre o improvável
(de uma amiga dizendo surdamente
"queria que a conhecesse, ela é adorável")
puxando teu braço, sorteada de repente
ao apertar do meu ombro, teus dedos
virei e encontrei o teu beijo bom
de arrepiar-me os pelos
de rasgar horas ao som
das onomatopéias eletrônicas
e um mozaico multicolorido
desencontrada em noite sônica
procurei teu cabelo escondido
pequenina em meio à multidão
encontrei tuas mãos
guardei-te em braços meus
e me perdi com sonhos teus
porque atravessei as noites
e inúmeros dias se passaram
te cultivei e me morrestes
e de número e espera nos deixaram
numa dança complicada
de datas, chefes, viagens, e horas marcadas
jogos de copa e quarto vazios
como o estômago e coração
da primeira ausência, o frio
não quero jogos, não!
Estes supostamente não eram para existir,
e confusão mental
gerada ao convergir
de mais um par de beijos afinal
e a mensagem espetada
na garganta que o ouvido não quer engolir
de haver adorado a noite,
deixando-me em casa, desesperado
pela a droga da aceitação
e as expectativas deixaram passar
por ilusão de vaidade?
Talvez psicologia barata de um perdido
que não sabe mais nada da verdade
enganado por uma paixão
construída com doze beijos
sem cama, sem conversa e nem chão
mas que acredita nos velhos meios
futura felicidade e muita projeção
de tu que vieste do nada
em recomendação
e ocupaste o espaço de semanas inteiras
de minhas dúvidas e tentativas frustradas
por quinze minutos de olhos nos olhos
de um basta em conversas veladas
E ao sentir o laço frágil se desfazer
desmilingüindo entre mensagens perdidas
entre datas não encontradas
da tristeza mais ardida
chego à encruzilhada:
à direita tento isto
à esquerda não me arrisco
e adiante só a estrada