quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pensamentos líquidos

Quadro de Troy Lovegates
Eterno náufrago de mim mesmo
afundado em pensamentos infinitos
inter-conectados ao mesmo tempo
sujo de eternos sobrescritos

Nessa apnéia surda, vivo
abrindo passagem entre os ditos,
contos, versos, romances
dos mais variados nuances

Mas hei de respirar um dia
a clareza de um dia reto
e sem volteios, sem cores frias,
sem vozes mentais, aberto

E verei tudo de cima
tecendo versos em caos ordenado
em cores quentes, minhas rimas
do todo ou em parte, feitas com cuidado

Onde finalmente perecerei feliz
por me ver em totalidade
imerso no mundo que fiz
e também parte de qualquer paisagem

Tornando-me encaixe exato
entre o passado e o futuro distantes
apenas humano em seu extrato
em fluxo único e constante


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Encruzilhada

Te escolhi dentre o improvável
(de uma amiga dizendo surdamente
"queria que a conhecesse, ela é adorável")
puxando teu braço, sorteada de repente
ao apertar do meu ombro, teus dedos
virei e encontrei o teu beijo bom
de arrepiar-me os pelos
de rasgar horas ao som
das onomatopéias eletrônicas
e um mozaico multicolorido
desencontrada em noite sônica
procurei teu cabelo escondido
pequenina em meio à multidão
encontrei tuas mãos
guardei-te em braços meus
e me perdi com sonhos teus
porque atravessei as noites
e inúmeros dias se passaram
te cultivei e me morrestes
e de número e espera nos deixaram
numa dança complicada
de datas, chefes, viagens, e horas marcadas
jogos de copa e quarto vazios
como o estômago e coração
da primeira ausência, o frio
não quero jogos, não!
Estes supostamente não eram para existir,
e confusão mental
gerada ao convergir
de mais um par de beijos afinal
e a mensagem espetada
na garganta que o ouvido não quer engolir
de haver adorado a noite,
deixando-me em casa, desesperado
pela a droga da aceitação
e as expectativas deixaram passar
por ilusão de vaidade?
Talvez psicologia barata de um perdido
que não sabe mais nada da verdade
enganado por uma paixão
construída com doze beijos
sem cama, sem conversa e nem chão
mas que acredita nos velhos meios
futura felicidade e muita projeção
de tu que vieste do nada
em recomendação
e ocupaste o espaço de semanas inteiras
de minhas dúvidas e tentativas frustradas
por quinze minutos de olhos nos olhos
de um basta em conversas veladas
E ao sentir o laço frágil se desfazer
desmilingüindo entre mensagens perdidas
entre datas não encontradas
da tristeza mais ardida
chego à encruzilhada:
à direita tento isto
à esquerda não me arrisco
e adiante só a estrada

terça-feira, 27 de julho de 2010

Incompleto

Em busca de amor e complemento
me lanço bobo ao mar em aventura
ansiando em conquistar alento
entre beijos, abraços e ternura

Os esforços usados na conquista
de atitudes, rimas e flores (piegas)
esvaziam a esperança de pista
de atenção cuja "pretê" hoje nega

Gastando desta feita a minha arte
exausto de esperar a contra-parte
e louco e solitário na disputa

desisto de enfrentar, assim, tal luta
por esse horizonte não repleto,
permanecerei assim

terça-feira, 20 de julho de 2010

Sem choro

Sem choro, que agora não adianta mais
escolhemos as armas e quebramos nossa paz
consumimos cestas e mais cestas de maçãs

Seguindo pelos campos sofridos
da liberdade, da escolha e da razão
buscando um futuro desvalido
em busca de qualquer conforto, dando as mãos
trilhamos o caminho ainda perdidos
ora evoluindo, ora rumo à destruição

E pisando dia após dia em sangue divino
de um Deus louvado por conveniência
no desespero estampado, mas contido
dentro de cada consciência
ainda rezamos e imploramos
diante dos mesmos erros cometidos
e da falta de resposta da ciência

Se o volume do seu mundo ainda está baixo
ou se as cores não mais representam
as vozes trêmulas em busca de socorro
saiba que dor e escolha se alimentam
apenas olhe o espelho e engula o choro

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eu e Deus

Não sou o maior fã de Deus
Porque Deus não cuidou dos seus
E Deus nos escolha
E Deus nos fizemos
E Deus andou
Adeus

Ainda assim acredito nas suas linhas tortas de maçãs que comemos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Vasculhando o passado

Procuro o passado
perdido, picado
em pequenos pedaços
de papel de almaço

Vasculho velhas vasilhas
que revelam verdadeiras
lembranças varridas
na vastidão da vida

Muitos sonhos se passaram
mas nem todos se acabaram
por essas noites passadas em vão

E não consegui juntar os pedaços
dos sonhos perdidos, picados
espalhados pelo meu chão

*poema feito quando eu tinha 10 anos

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Morte e vida na hora do rush

Salpicam entre o dourado penetrante
pedaços de coisas em movimento exuberante
do vapor quente que sobe ao nariz
aos que repousam finalmente ao plúmbeo-gris

Visão de monotonia plácida que jaz
nos vultos lentos a passar em falsa paz
choca-se em meio a música repentina e chuvosa de sapatos
em saltos úmidos frustrados se livrando de regatos

E em tarde quente cujo fim se aproximava
do fim da gente ou mais um fim de uma jornada
sobrando em frente a mudez noturna desesperada

Do tédio de ver a vida passar
Na esperança de uma luz abri um livro
Mas desisti, tomei coragem de viver e abri o vidro

terça-feira, 29 de junho de 2010

Cinza

Não há poesia
quando tudo o que se vê
ouve, toca e sente
está cinza

terça-feira, 22 de junho de 2010

Zom in, Zoom out

Em se supor,
suponho que
o mundo ora dista
e ora se acerca

De fato,
sem nada,
vivemos tudo
no mesmo momento

E o embalo das horas
inexorável
faz-nos caminhar
como escravos do tempo

Prazer te encontrar
conhecer, esquecer
apaixonar
dando sentido ao que é viver

Fotos, figuras,
marcas e rastros
e cicatrizes
de amores gastos

Manias,
fescuras
de outros dias
em partes iguais

Nunca vistas,
e sempre aparentes,
revelam marcas
dos seus ancestrais

Seguindo seu rumo
sem norte, sem prumo
no caos e na ordem
do cerne de tudo

Entorta-se a vista
adequa-se a fonte
segue o padrão
que devora a gente

Num dia ou no outro
vive-se o máximo
doa-se o mínimo
chora contente

O prazer deslavado
de usar mal usado
cada trocado,
doado do tempo

Sem garbo,
requinte ou luxo
ignorando tudo,
pois viver é efêmero

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Alívio

Suspira o coração
ao desascelerar
do topo de seu pulsar
após o susto de um trovão

Engole e conflita
o nó preso na garganta
desmorona
em boca doce ao salivar

Braços escorrem
arrastando ombros e dedos
em onda de calor
relaxando até o pé

Que formiga
junto da barriga
acalorada novamente
onde fome toma vida

E torce o pescoço
tal qual a coruja
ao sentir o estalar
aliviado osso por osso

Mas olhar quase escuro
concordando com barulho
reticente, quase surdo
destoando ao relaxar

Da arma segue o tiro
e o trovão com o alívio
da morte ao me levar

terça-feira, 8 de junho de 2010

Transitivo do impacto da paixão à primeira vista

Há dias que o transito instintivo
em um não-piscar fica assim: definitivo.

Num momento o alternar entre o escuro, 
e claro demais... noutro o inferno o céu, inseguro.

Esparramado escorre mais um corpo no degrau,
dor e lamúria de um desastre nacional.

Um, dois, três passantes
logo logo sirenes incessantes.

Mas sei que passaram mais, e esse não vi,
último em memória e primeiro suspiro na UTI

Não há um dia sem ser atormentado
por haver sido atropelado.

Porque vi você, que não sorriu.
E o vidro do meu coração então se partiu.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Receita

Tomei dois sorrisos
somei uma dor
embora indeciso
tirei uma cor

Somei neologismos
formados com graça
furei silogismos
que a vida me traça

No espaço vazio
um suspiro fundo
um pouco de frio

que se derreteu
criei esse mundo
pus nome de meu

quarta-feira, 2 de junho de 2010

beBãdo

Dedos errados
tropeçam calados
neurônios engarrafados


terça-feira, 1 de junho de 2010

Indiferença

Na trama do lençol restaram teus suspiros
roupas, cheiro, batom, o sal do teu suor
no meu copo de vinho teu gosto e delírio
o som daquele disco tocando em dó menor

O tom da vida curta outrora proferido
felicidade pura que exalava de nós
agora inspira o medo perdido em teus gritos
e dá ao beijo amargo sabor de mais um pós

Jaz teu corpo na cama em sonho suspendido
desperta do cansaço da briga e da descrença
e fúria indomável do término cumprido
e o silêncio negro da minha indiferença